Com base nos números da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo) publicados ontem na Folha de São Paulo, podemos ficar tranquilos: voar de avião é seguro.
A média mundial de acidentes aéreos em 2008 foi de 0,81 a cada um milhão de decolagens, contra 0,75/milhão em 2007. Isso significa 109 acidentes aéreos com 502 mortes em 2008 e 100 acidentes com 692 mortes em 2007.
As chances de morrer ou se ferir em um desastre de avião comercial é de 0,00003%, quase um prêmio de loteria macabro. Para se ter uma idéia em números redondos, entre 1982 e 2001 a média de mortes anuais em acidentes com aviões foi de 120, contra 1.000 mortes em acidentes de bicicleta e 46.000 mortes em acidentes de carros (nos EUA. No Brasil morrem, anualmente 35.000 pessoas com uma frota bem menor do que a americana).
Resumindo: o avião ainda é o meio de transporte mais confiável que existe, só perdendo mesmo para o prosaico elevador, que tem ainda tem a vantagem de não precisar de controle de radar, check-in, turbulência e um sistema de freios que segura o bicho em caso de pane, até chegar o socorro.
Bom, apesar dos recentes casos da Gol e TAM, o Brasil ainda está bem na foto. Para um país de dimensões continentais, o uso do avião é imprescindível. Macapá, a capital do Amapá, por exemplo, só pode ser acessada por via aérea ou fluvial, o que nesse caso significa fazer uma viagem de barco durante 24 horas desde Belem.
Por mais dor e perplexidade que causem, os acidentes aéreos sempre contribuem para que erros não sejam mais repetidos. Esta é razão das investigações exaustivas e profundas, que só se encerram quando todo o mecanismo é deteminado e recomendações para procedimentos futuros são elaboradas.
Aliás, a Nat Geo, canal de TV por assinatura, tem um ótimo programa que mostra de forma quase didática como são essas investigações. Até quem tem medo de voar acaba se envolvendo e entendendo mais porque acontecem essas tragédias.
Um acidente aéreo nunca tem uma só causa, a não ser que o avião seja abatido por um missil, como o Boeing 747 da Korean Air Lines, confundido com um avião espião e derubado por caças Mig, da extinta União Soviética.
As maiores causas de acidentes são as falhas humanas. 57% dos acidentes aéreos ocorreram em função de erro humano: 30% dos casos, o erro seria do piloto; em 20%, falha humana motivada por condições meteorológicas adversas e em 6%, erro motivado por dificuldades com o equipamento.
No Brasil, segundo o CENIPA – Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos, ao analisar 629 casos, falhas humanas foram as principais causas dos desastres. Ao todo, 82,7% das 2.283 causas apontadas pelo órgão tinham alguma relação com quem estava diretamente envolvido no vôo, como piloto, controlador de vôo e mecânicos.
Isso talvez explique a crescente automação do voo, tanto nas aeronaves, como nos controles de radar e nos aeroportos. Computadores podem detectar erros de julgamento ou operacionais da tripulação e corrigi-los. Um dos aviões que já faz isso é exatamente o Airbus A330 que, dependendo do aeroporto, pode até pousar sozinho.
As regras da aviação são muito rígidas e devem ser cumpridas à risca, além de requerem pessoal altamente qualificado. Bem diferente daquela turba que sai de automóvel se matando pelas estradas brasileiras nos feriados prolongados. Com ou sem fiscalização, diga-se.
O brutal acidente com o Airbus da AirFrance vai deixar sequelas até em quem tem confiança irrestrita em voar, principalmente por não ter nenhum sentido: avião novo, de última geração, tripulação experiente e operadora aérea tradicional, com baixo histórico de acidentes. Será que um dia saberemos exatamente o que aconteceu lá em cima ?
Mas as pessoas continuarão voando. Apesar do desconforto de ficar preso em uma lata durante 10, 12 horas, mal acomodado, comendo, respirando mal e com alto nivel de stress, ainda é o meio mais rápido, seguro e eficiente de ir de A para B. E sem dúvida, não podemos nos esquecer que o mundo ficou menor e com menos fronteiras desde o advento da aviação comercial.
Até que as viagens pelas máquinas de teletransporte da Enterprise do Cap. Kirk estejam disponíveis, continuaremos a viajar dessa antiga maneira, usando emprestada as asas de alumínio de um jato.
Deixo aqui minha irrestrita solidariedade às famílias das vítimas do voo AF 447. Sempre que penso no assunto, me vem a idéia de que o acidente foi rápido e talvez ninquém tenha sequer notado.
Tomara que sim...